domingo, 14 de setembro de 2014

Dá pra viver sem política?


A política, ou o esteriótipo em que ela se transformou, tem cada vez menos importância na vida das pessoas. Mas ela é a essência do relacionamento social e está presente nas nossas mais variadas atividades e vivências cotidianas. Desde os relacionamentos com nossos filhos e alunos, que seguem em geral um intrigado jogo de negociações e poder, até a nossa vida profissional, pessoal e amorosa. Estamos, mesmo sem perceber, diariamente exercendo a política.
A política como forma de convencimento ou de cessão; a política como meio de escolha nos mais variados assuntos, da melhor forma pedagógica na escola ao passeio escolhido para o final de semana em família. Política é, enfim, o meio do qual nos apropriamos para debater, convencer, ceder e fazer escolhas nas mais variadas ocasiões de nosso relacionamento social. Sem a política, que é a disputa sadia de interesses opostos, o ser humano não poderia viver em sociedade.
Porém, o termo tomou, há algum tempo, outra conotação. Virou sinônimo de busca de privilégio, de má intenção, de oportunismo e de mesquinharia. A política, tão indispensável ao nosso convívio, transformou-se em sinônimo de imoralidade e de ausência ética, graças ao insistente foco, oportunista e sensacionalista, na atuação de muitos atores políticos, cujo individualismo, a falta de senso comunitário e até mesmo de honestidade, transformaram este nobre meio de manutenção da convivência social em algo passível de se repudiar. O objetivo dessa difamação da política, escondida atrás da mera 'divulgação da verdade', é a construção de uma realidade exageradamente negativa, a esconder todo benefício da política e afastar os bons cidadãos da atuação política, pela imposição de uma imagem depreciativa da atuação política, em especial a partidária e eleitoral, caminho democrático de acesso ao poder estatal e ao comando do orçamento público.
Vejo a necessidade de resgatar o termo política como sinônimo de convivência social, como ferramenta para se viver em harmonia com todos os que nos rodeiam. Como necessidade vital para a convivência em sociedade. Praticar política não pode mais ser visto com negatividade, como algo que não está à nossa altura, mesmo porque até mesmo esta equivocada escolha é uma escolha política. Afinal, alardear que a “política” não presta, que é coisa de quem não tem escrúpulos, é em si mesmo uma atitude e um convencimento político a comprovar a importância e a necessidade da política em nossas vidas. Neste exato momento, estamos praticando-a, você lendo este arrazoado, e eu tentando convencê-lo de meu entendimento. E estamos fazendo política sem más-intenções, sem sentimentos negativos, apenas praticando a necessária e sempre bem-vinda política.

O estudo e a prática da política traz ao ser humano a imprescindível vivência social de que tanto necessita em sua vida. Estes estudo e prática dão-lhe a capacidade de discernimento entre o que acredita ser certo e errado, desenvolvendo nele a capacidade de argumentar, de aquiescer, de convencer e de ser convencido, de discernir entre as mais variadas formas de se encarar um problema e de se encontrar a solução mais viável para ele. Trazem o desenvolvimento da argumentação e da escrita, de forma culta e civilizada. Desenvolvem o respeito pela palavra tanto escrita como oral e pelas idéias que delas emanam, bem como a capacidade de escutar e ser escutado. Habilitam sentimentos como os de humanidade, respeito, urbanidade e democracia. Afastam aos poucos sentimentos comuns da vida moderna, como o individualismo, a mesquinhez, a intolerância, o preconceito e o egoísmo. Confirmam que o diálogo é a melhor forma de resolução de quaisquer problemas na convivência humana. A prática política traz alguns acirramentos, mas as legítimas afinidades conquistadas sempre os compensam.

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